sábado, 7 de novembro de 2009

Bom Ladrão



Me ludibriou com essa brincadeira
de querer demais sem ter uma razão
me chamou de amor por uma noite inteira
e no amanhecer já me deixou na mão

Burlou toda lei que era de costume
não me entregar a qualquer ilusão
com olhos que não sabem o que é tapume
destampou com tudo o meu peito vão

Descobriu no breu de um buraco profundo
que no fundo havia um pobre coração
e ensinou numa noite a esse moribundo
não se esconde nada de um bom ladrão

Ô, Aurora, volta aqui, ô!
volta ao menos preu saber
como é que tu roubas o meu coração
e ele ainda bate por você





* Primeiro veio a primeira frase; talvez antes a palavra. E então a vontade de fazer um samba antigo. Como daqueles, que aqueles poetas pretos das cabeças brancas faziam pras suas negas. Ou pro mundo, como se tudo já não fosse. O samba fala ao ouvido do mundo batucando numa caixinha de fósforos.

domingo, 1 de novembro de 2009

As Coisas



as coisas
não têm medida
toda vez
que as tento advinhar
eu perco
perco o tempo
perco dinheiro
perco pessoas
as coisas são e estão
e o certo é tentar correspondê-las
o quanto antes
e não desvendá-las
as coisas não gostam de esperar
as coisas se alimentam de urgência



* quase nunca escrevo um poema e vou logo pondo aqui. assim que os ponho no papel, quase sempre me parece que falta algo; talvez segurança a mim mesmo. mas prefiro essa postura cautelosa. poesia é algo sério, mesmo que gargalhe o tempo todo. dessa vez, contudo, não faria sentido esperar. e olha que devo ter escrito ontem. ou anteontem...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

(título no *)



eu vi/ela olhar pra mim de longe eu era um monge cupito junkie e janelas pulsando pulando ululando atenção atenção! ATENÇÃO! e ela me fog/e corre pelas minhas veias mas não consigo tocá-la eu digo asneiras o tempo todo e todo outro tipo de voz animal é sufocada eu sou humano demasiado e bastardo como tod/os filhos da raça mais bastarda da terra líquido líquido líquido me pe-tri-fi-co aos poucos a tv os sons que busco e os que me buscam não conseguem me desligar eu continuo preso a essa história giratória e a essa linguagem vulgar que se defende se entende e deixa pra gente a confusão - NINGUÉM NUNCA VAI SE COMUNICAR! - e as janelas pulsando pulando ululando ululando ululando continuam pedindo atenção atenção atenção...





* o blog é uma ferramenta ótima mas limita ainda a poesia. algumas coisas que penso não se encaixam na caixa do blogger. outras se espremem. meu título não pode sair aqui, porque é confundido com uma tag não fechada. mas é um "<" mais um "o", que juntos formam um alto-falante.

domingo, 18 de outubro de 2009

(sem título)



à noite
a minha pele
vira algo
fina
pura neblina
que separa a noite
da noite

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Caminho da Roça



e o caminho da roça
é o caminho da vida

que apesar de sofrida
faz carinho também

a flor mais bela do mato
brota da terra ferida

a voz marreca do pato
é bossa nova, meu bem


* Fiz esse textinho pro som de um amigo. Mas saiu tarde, e não entrou num vídeo. Tá solto agora. É que eu voltei da roça, cheio de nostalgia.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

sob(re) o estranho



ele passou de Ká
(preto)
e chapéu na cabeça
e no chão
no quintal de casa
tem uma mangueira
mas o céu acima
nunca foi dele

ele só quer se esconder
de mim, de você
(de quem mais?)

viver voltado pra dentro
ver as contrações
ocorrendo
ver o suco gástrico
escorrendo ácido
pelas paredes do estômago

corroendo a manga
consumindo o mango
escondendo o âmago

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Falsa Coral



sexo é o co(u)ro
de duas
(ou mais) pessoas








PS:. esfregue

domingo, 20 de setembro de 2009

âmbar




vou distraído
eu sei
mas o vazio que trago nos olhos
é a vontade ancestral de não se ferir dos homens


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

subcutâneo











tudo me atinge
bordoadas na cara
nada escancara
fico roxo por dentro

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Samba pra Silas

esse é um samba pra Silas
um samba assim bem legal
pra acabar com as quizilas
entre o lírico e o formal

formou?

um sam'bem simples e bom
um terreiro espacial
plantar um pé de bombom
um bem que espantasse o mal

pra outro planeta inabitável
onde não há nem cometa
e que o mal fique plantado
por lá

e arrumar mais um sol
pra iluminar por aqui
pra que o Brasil e o Japão
possam acordar e ir dormir
na mesma hora
e uma mesma aurora
trouxesse o novo dia

sakou?

e nem precisa função
pra esse samba
calção de banho
vamos correr para o mar
pegar um tubo total
e ir parar em Plutão
porque o segredo da vida é:

esquece
né nada não!



* Foi assim: um dia eu encontrei o companheiro-cantor-compositor Silas Giron na famosa varandinha lá da faculdade. Conversa vai, conversa vem, vem Itamar Assumpção, também. Silas gostou, e marcamos de escrever algo juntos, fazer um som. Passaram-se séculos, e nada da gente combinar isso direito. Daí a impaciência daqui fez que eu compusesse esse "Samba pra Silas". Ficou guardado, pro tal encontro. Então, do nada, junto com outro artista-camarada, o João, acabamos na Praia do Buracão. Mostrei o samba pra Silas, que acompanhou no violão, enquanto descia o Sol. Tinha que ser lá, tinha que ser. Só.

domingo, 6 de setembro de 2009

Poema inédito no projeto Uníssono

Olá, leitores voadores.

Dias atrás, recebi um convite para publicar uns poemas num projeto bem interessante, o Uníssono, junto a outros nomes os quais admiro bastante. Agradeço aqui ao Gilson Figueiredo, quem me contactou, e posto abaixo o link, para que confiram o poema inédito "Beata Beat Fulminante" e mais dois outros poemas aqui do blog, escolhidos pelo Gilson, além de uma mini-bio, escrita por mim. Boa leitura!

Beata Beat Fulminante

Abraço a todos!
Até mais ver.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

CABRA MACABRO






Ele era um cabra macabro
como aqueles da TV
ele era um cabra macabro
Lampião iria tremer

Também pudera
era como o rock'n roll
cabeça-tocha-fera
mãos de Rocha o redentor

E não se entrega não
não é pássaro
é homem alado

E não se entrega não
só pra morte
parabelo ao lado

Um filho torto da sétima arte
cabeça start sete palmos nas mãos
imagem e ação ou verdade?
na tela grande o mar vai virar Sertão!






* Letra primeira da temporada de canções que começou no fim do ano passado e não cessa fogo de jeito nenhum. Nem com peixeira no bucho.
** Nas fotos, Glauber Rocha e Corisco (Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964)


domingo, 9 de agosto de 2009

()

lasciva e libidinosa
mucosa quente quina
cama mesa prosa
cola colo cola
lasciva e libidinosa
limpa lambe goza
enxuga suga goza
goza gozo goza
lasciva e libidinosa



* 28/11/08

domingo, 2 de agosto de 2009

Calos



cada vez que me calo
calos crescem em meu peito
de um jeito que eu
claro
não consigo explicar

e palavras socam por dentro
curvas
interrogações
mas calam-se as ações
em seu cárcere não-lugar

eu sincero espero o dia
em que estas feitas
fugidias
fujam
para então falar

quinta-feira, 23 de julho de 2009

(sem título)



água
doce
deságua
mansa
n'água
salgada
imensa
lágrima
agua
mansa
d'água
doce

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Poemas Falados




Soldado Amarelo (tin soldiers)

Numa escala entre um caminho e outro, em Charlotte - USA, passou por mim o tal soldado. Mas... soldado?, pensei. Ele é da minha idade ou ainda mais jovem que eu! O espanto. O texto saiu gritando pelos dedos, agarrou com força as páginas de um bloquinho de papel, como se tivesse medo. Continuei o caminho que era meu, mas aquele soldado também era eu.



[ficha técnica]
ilustração,
texto e leitura - álvaro andrade
música -
cebola pessoa


e
Receita de Chapati


* As leituras dos dois poemas, que já haviam sido postados aqui, são parte integrante de um projeto muito bacana do qual faço parte, o Coletivo Muito Barulho Por Nada. Não deixem de conferir, tem muito mais coisa por lá. E se quiserem colaborar, é só falar!

sábado, 4 de julho de 2009

sóssuposissó

se eu soubesse dizer
tudo que brota em meu peito
e cai pelos meus olhos
invisível

tudo o que me traspassa a pele
que explode leve
como só daqui se treme

o que habita a garganta
e janta comigo
e que agora me escuta
e escuta comigo

tudo o que eu não sei dizer
e que não diria
se eu soubesse

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Anarriê Saquê



haicai balão
haicai balão
aq na minha mão

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Receita de Chapati



aveia, óleo (no olho),

água quente e farinha de trigo.

mexe e amassa como eu vi

"a massa tá massa!"

estica c/ 1 vidro de pimenta chinesa

até ficar transparente. enquanto aguarda

(acende o fogo, põe na metade, escuta a voz da experiência)

"a massa tá bem fininha..."

sopra a janela bem longe, você tem super-poderes

(o ventania faz os chapatis dele numa panelinha)




* Esse poema/receita eu escrevi num momento muito doido, lá ainda, em San Francisco, em que, realmente, aprendi a fazer chapatis. Eu tenho um carinho enorme por ele, arrisco a dizer que é o meu poema que mais gosto, pelo menos agora, pois gosto de tudo nele, praticamente. Experimente.

** Experimente também essa nova iguaria criada a partir do poema, com ingredientes de mais dois cozinheiros, que seguiram minha receita mas criaram outros tipos de chapati, surpreendentes até pra mim. E depois misturamos tudo.

*** Talvez seja essa a mágica de Receita de Chapati, por mais que você a siga, você nunca saberá o que vai provar no final.


terça-feira, 9 de junho de 2009

(sem título)



man(un)inteligible
: rock'n'roll
all night

terça-feira, 2 de junho de 2009

Tempo de Estrada



ellen diz:
aaaah
vc é poeta =P
ALvaro > diz:
é, a!
tem dois anos e o infinito pela frente!
ellen diz:
hahahaha
o infinito



* ALvaro> diz: ficou bonito isso =) / ellen diz: ficou/ ALvaro> diz: vou publicar, talvez hauahauhauha

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Salmoura

voando pelas veias de Salvador
salmoura sal na beira
eu
inventou de me contar
uma história de amor
só pra amolecer o coração

ainda há tempo pra chuva
as gotas curam solidão
mistura o cheiro mistura
da terra da água
das áuras clarescuras
das coisas sem razão
só pra amolecer o coração

lembrou lá da menina
de um mês atrás
lembrou e mais
provou a sensação
lembrou do beijo o zelo
sem ter mais
lembrou
lembrou
lembrou
(não lembra não...)

mas tudo que a memória faz
tá por conta dela
o que guarda ou se desfaz
aceito
bom rapaz não deve reclamar
memória sempre sabe
o que guardar
memória sempre sabe
o que apagar
só pra amolecer o coração


* Mais uma letra feita nesse último semestre, em que tenho feito mais delas que poemas. Mas uma coisa não é meio que a outra? É, exatamente do verbo pode ser, pode não ser. Mas tô sem paciência pra quizila agora e fico com a resposta da Adriana Calcanhotto, no documentário sobre música e poesia, Palavra (en)cantada: tem coisa mais importante na vida pra eu perder tempo com isso.

domingo, 10 de maio de 2009

*



beij*

,
mainha

.
beij*
,
minha
fl*r



* Eu não sou muito de datas, mas mãe é mãe, e a minha merece o mundo e todas as flores.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Emagrecedor Bio Redux

a puta culta de Cuba descobriu
a zona erógena de Deus
falou aos seus: libertai-vos,
o Senhor é dos meus!

de posse do cajado de Moisés
abriu o mar como uma resma
de escritos escrotos de papéis
favor tratar com ela mesma

já chegou a hora
ela é quem manda
a partir de agora
apocalipse now

a arca de noé tá congelada
junto com o tesouro nacional
na ponta do iceberg, antárctica
no fundo há 10 grades de skol

chama a Salomé, tá tudo liberado
pecado é perder o bacanal
garçom, eu quero o meu humano mal-passado
viva o sexo livre animal!



* Então foi assim: André Uzêda Hope Children, já lá pelas tantas, tomado, me chega com essa frase: "zona erógena de Deus": velho, muito boa, muito boa, eu nunca te dei nada de presente, toma essa frase pra você. Aí eu disse que faria uma música. Aí deu nisso aí: um rockzinho alah-rita-lee!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

tin soldiers

o soldado amarelo e desengonçado
camuflado de cima a baixo
numa farda clara
gasta gasta gasta

quantas mais guerras
serão necessárias
pra ela ficar branca?

o soldado criança
de olhar curioso e cansado
que eu quase não pude notar
(eles passam tão rápido...)
cometas anônimos teleguiados

o soldado que eu vi
nunca será
mecânico astronauta ou artista
(não que lhe faltasse vontade)
ele morreu na pista de decolagem

quantos outros ainda nascerão
até que sua farda
num último clarão
fique branca e suma
para sempre?

mais um pequeno soldado
acaba de sair do ventre

domingo, 5 de abril de 2009

O Palhaço

o palhaço vai
a um passo à frente
quicando
junto à loucura e à cura
das mazelas venéreas, das mazelas mazelas
e da solidão inexorável
do homem moderno-pré-histórico
o palhaço retórico diz tudo
o que eu e você calamos amarelos
o palhaço é colorido
o palhaço pula do prédio
que a gente quis pular
mas bate no chão como bola de borracha
(alguém sem fantasia nunca quica assim)
e sai pulando pelo chão sem parar
nunca
rindo da vida e da morte
distraindo as crianças
enquanto a hora não chega

terça-feira, 24 de março de 2009



piu piu piu
pingam pingos impávidos
distraídos

mas fortes como filhos de Zeus

10 pés de pintos cercam
a futura rainha
e o cano solta sons de sopro
ela hipnotizada é presa fácil

piu piu piu
nem tudo que ainda está por vir
pode quando é morte o porvir




* Fiz esse poema pra um concurso. O negócio era mais ou menos assim: você ouvia um som e escreveria inspirado nele. Acabou que eu nem mandei o poema. Nem sei por mode quê.

segunda-feira, 16 de março de 2009

mistério por debaixo do cabelo

da última vez
que cortei o cabelo
a cabelereira lavou-o
com tanta força
e por tanto tempo
que eu penso
que ela queria ler
meu pensamento
pra q isso, moça
pra q essa força
se nem eu sei
o que se passa
aqui dentro

quarta-feira, 4 de março de 2009

Magia:

para ganhar tempo
tomar dois copos de
café (por dia)
um de manhã e
um de meio-dia

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Fast Breakfast (super cereal bow!)

a lua caiu no tapete
enquanto meu coração
ficou no prato
com outros pedaços
que lembravam dentes
é impressionante
o tanto que um cereal
pode saber
sobre a vida da gente
 
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